terça-feira, 10 de julho de 2007

Os Filhos de Húrin

Naquilo que é possivelmente um dos lançamentos mais mediáticos do ano em literatura fantástica, a par da conclusão da saga Harry Potter que foi prevista para o verão passado, a editora britânica Harper-Collins anunciou o lançamento mundial que foi realizado em 17 de Abril do muito aguardado The Children of Hurin de JRR Tolkien.
Com uma primeira tiragem mundial de 500 000 exemplares e os direitos vendidos para mais de 25 países, está longe de ser apenas uma mera compilação de notas, mas é antes uma narrativa coerente, a título póstumo, de uma das mais antigas histórias a surgir da imaginação do autor, desenrolando-se muito antes dos acontecimentos presentes na trilogia O Senhor dos Anéis, mais precisamente, seis mil anos antes da guerra do anel.
Os livros de JRR Tolkien foram catapultados para a fama após a adaptação cinematográfica de Peter Jackson da trilogia O Senhor dos Anéis, um evento marcante e que despertou as massas para o potencial da literatura fantástica, um ramo da literatura fértil há já muitas décadas.
Um professor de Oxford, JRR Tolkien detinha conhecimentos vastos em literatura anglo-saxónica e escandinava. Tendo sido grandemente inspirado pelas antigas epopeias nórdicas e pelo Kalevala, um poema épico finlandês, assim como, autores que pertenceram à primeira vaga de fantasia moderna como Andrew Lang, William Morris, George MacDonald e Lord Dunsany, o autor deu início à criação do seu próprio corpus mitológico, centrado na Terra Média.
Várias eras decorrem na Terra Média e em todas elas, são contadas histórias de grandes feitos, pequenas e grandes tragédias a nível individual ou universal, que encarnam valores como redenção, auto-sacrifício, coragem, honra, mas também, a inexorabilidade do destino e o triunfo do amor sobre as forças malignas que ameaçam a terra e os seus habitantes, inspirando milhões de leitores e tornando-o num dos autores de fantasia mais populares de sempre.
Os Filhos de Húrin não é a primeira história a ser publicada após a morte do autor em 1973. Já antes, o filho, Christopher Tolkien, o guardião do espólio literário do professor de Oxford, fora o responsável pelo O Silmarillion, uma colectânea dos principais mitos que constituíam os alicerces da ficção Tolkieniana, e para muitos dos fãs, possivelmente, a sua melhor criação. Surgiram também os doze volumes de History of Middle Earth, embora não tão vocacionados para o público em geral.
Mas Os Filhos de Húrin será o primeiro livro, dos recentemente editados, a ter a capacidade de se assumir ao nível de O Senhor dos Anéis. E é absolutamente trágico. Os finais de Tolkien muito raramente são finais felizes. As suas histórias contém um sabor doce e amargo, e a vitória anda sempre a par com um profundo sentimento de perda e mágoa. Isto será ainda mais verdade em Os Filhos de Húrin.
Num tempo muito remoto, muito, muito antes de O Senhor dos Anéis, um grande país se estendia para além dos Portos Cinzentos a Ocidente: terras por onde outrora caminhou Barbárvore mas que foram inundadas no grande cataclismo com que findou a Primeira Era do Mundo.
Nesse tempo remoto, Morgoth habitava a vasta fortaleza de Angband, o Inferno de Ferro, no Norte; e a tragédia de Túrin e a sua irmã Nienor desenrola-se sob a sombra do medo de Angband e a guerra forjada por Morgoth contra as terras e cidades dos Elfos.
Uma publicação póstuma, a história contida neste livro foi iniciada pelo seu autor há várias décadas, mais precisamente em 1914. Avaliando os excertos contidos em O Silmarillion e Contos Inacabados de Númenor e da Terra Média, é talvez uma das criações mais negras de Tolkien. É uma história sobre maldição e a impossibilidade de escapar a uma condenação ditada por deuses cruéis. A história sobre a incapacidade de um homem de assumir as rédeas do seu próprio destino e desafiar as forças que aprisionam e limitam a sua vida.
Hurin, um dos maiores guerreiros humanos quando a Terra Média ainda era jovem, é aprisionado por Morgoth e amaldiçoado por se recusar a trair os elfos. Acorrentado de forma mágica a uma cadeira num alto pico, é forçado cruelmente a assistir a todos os males que se abateram sobre a sua própria família. O seu filho, Túrin, faz jus à memória do pai, mas ao longo das suas inúmeras batalhas, tragédia marca todas as suas ações e todos os que o amam.
As críticas, até agora, têm-no considerado uma justa homenagem ao autor e um bom complemento aos livros de tom infanto-juvenil como O Hobbit e As Aventuras de Tom Bombadill, superando até o tom crescente de sobriedade e gravidade de O Senhor de Anéis, para se tornar numa das mais belos e intensos de todos os livros que narram a mitologia da Terra Média.
A edição portuguesa já está disponível nas livrarias desde 17 de Abril, acompanhando a data de publicação mundial.
Os Filhos de Húrin, JRR Tolkien, Publicações Europa-América

Nota 10

Títulos de JRR Tolkien publicados:

O Hobbit
A Sociedade do Anel
As Duas Torres
O Retorno do Rei
O Silmarillion
Contos Inacabados
As Aventuras de Tom Bombadill - Portugal
Os Filhos de Húrin - Portugal

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Referência da Ilustração:
Uma das 25 ilustrações da autoria de Alan Lee criadas para Os Filhos de Húrin. Possivelmente Nienor a contemplar a figura distante de Turin Turambar.